Novamente na estrada.
Com todo esse calor, nada como respirar o ar fresco da serra.
Andanças.
Sacola, livro, caderno de notas, câmera fotográfica. Tudo se repete.
Mas temos novidades.
Cordões, bolinhas, tecidos, cores, tessoura, agulha, argolas. Nada se repete.
Um novo projeto. Enfeites - colares com arte. Peça por peça, nasce a mescla de cores, de belezas. Estou apaixonada pela idéia. Gosto do artesanal, do particular, do criar e de poder ver as pessoas mais bonitas.
É tão bom quando sabemos que aquela unidade é singular.
O feito a mão.
E assim, sempre surgem histórias e desejos que trazem entusiasmo.
Variedades.
Dizem que quem faz muita coisa, não toca a nada em profundidade.
Ora, nada como experimentar.
Ousar.
Adaptar o que se faz ao momento que se tem.
Ir, vir. Fazer. Abandonar. Lembrar. Destruir. Tentar. Refazer. Transpor. Esperar. Criar.
Toda a superfície que se toca com arte e amor já faz o bem.
Escolher é refazer. Palavras são soltas. Pensamentos são expressos. Gestos são construídos. O que é a vida além das escolhas? Primar então, pelo melhor, é buscar ultrapassar o simplesmente simplório. Almejar o além, uma transmutação, crisalidar. Reunir o que se admira. A arte maior está em fazer da própria existência algo único. Alma incandescente que aspira por uma obra maior. "A VIDA É CURTA DEMAIS PARA SER PEQUENA" (Disraeli)
Filme - Uma mente iluminada
O filme é bem interessante.
Pra quem gosta de colecionar tudo que encontra pelo caminho, descobre aqui um belo exemplo. Jonathan coleciona objetos e materiais que servem de lembrança do seu passado familiar - uma forma de não esquecer os momentos e preservar a história.
Jonathan (Elijah Wood) é um jovem judeu americano, que vai até a Ucrânia em busca da mulher que salvou a vida de seu avô na 2ª Guerra Mundial. Ele é auxiliado nessa viagem por Alex Perchov (Eugene Hutz), um precário tradutor que mais atrapalha do que ajuda, e pelo avô de Alex, um motorista mal-humorado que anda sempre acompanhado de seu estimado cão, batizado de Sammy Davis Jr.
Durante a jornada o inusitado quarteto descobre segredos sobre a ocupação nazista e a cumplicidade do governo ucraniano da época.
O rapaz que o acompanha, Alex, sempre dizia que o passado é o passado e ponto final. Mas com a presença do nosso colecionador passa a revisar a importância das recordações.
É uma história sobre o tempo. Belas paisagens. Admiração.
Ganhou o Prêmio Lanterna Mágica, no Festival de Veneza.
Filme - A defunta Correia
"O curta de Nicolas Gambois (2007) nos apresenta dois amigos, um Belga e um Francês, que viajam sozinhos pela Argentina, acabam se perdendo no meio de um deserto muito quente na Cordilheira dos Andes. Depois de uma caminhada muito cansativa e de um encontro com um fenômeno local (La Difunta Correa), chegam a medir a profundidade dos seus medos e as fronteiras de suas certezas, entre a fé e a insensatez".
Quem já passeou pela Argentina deve ter notado aquelas casinhas com uma imagem onde as pessoas deixam garrafas d'água. Acontece que um dia, uma mulher desesperada para encontrar o marido, saiu com o bebê a sua procura. Ela se perdeu e após alguns dias a encontraram morta no deserto por sede e exaustão, mas o bebê estava a salvo e se alimentava. Todos acharam que ela foi uma santa por conseguir manter o filho vivo. Então, todas as pessoas que acreditam no fenômeno local, deixam uma garrafa de água como um símbolo de proteção e boa sorte.
Quem já passeou pela Argentina deve ter notado aquelas casinhas com uma imagem onde as pessoas deixam garrafas d'água. Acontece que um dia, uma mulher desesperada para encontrar o marido, saiu com o bebê a sua procura. Ela se perdeu e após alguns dias a encontraram morta no deserto por sede e exaustão, mas o bebê estava a salvo e se alimentava. Todos acharam que ela foi uma santa por conseguir manter o filho vivo. Então, todas as pessoas que acreditam no fenômeno local, deixam uma garrafa de água como um símbolo de proteção e boa sorte.
Sobre o Tempo
Hans Castorp comentava sobre a desarticulada monotonia da existência rotineira.
"Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina?
Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida - para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte -, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também.
Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos errôneos.
Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isso não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem "tediosos" o momento e a hora; porém, as grandes contidades de tempo são por elas aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada.
Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.
O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa - esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábito, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação do tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, uma retardação da nossa experiência do tempo, e com isso, o renovamento da nossa sensação de vida em geral.
Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer: vigoroso e amplo. Isso se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante.
Verdade é que a vitalização de nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão.
E o senso de tempo de quem já está fatigado pela idade, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital -, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite".
Achei muito interessante este fragmento sobre o Tempo.
Temos o costume de pensar que aqueles momentos fatigantes demoram mais a passar, enquanto que, aqueles repletos de novidades e acontecimentos correm como água. Mas, quando olhamos para trás, o que fica são os momentos mais vividos, então esses se tormam mais extensos. Aquilo que vira rotina fica na mente como uma fração "resumida" do tempo - pode ter sido mais, mas vira menos quando tentamos lembrar. Pra sentir então o tempo, seria preciso criar situações marcantes, é isso que vai ficar e constituir um valor às lembranças. Disso decorre o valor de uma viagem, de uma nova leitura, uma descoberta. São essas escolhas que formam e recheiam a nossa mente quando fechamos os olhos. Do nada, resta apenas o nada.
"Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina?
Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida - para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte -, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também.
Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos errôneos.
Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isso não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem "tediosos" o momento e a hora; porém, as grandes contidades de tempo são por elas aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada.
Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.
O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa - esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábito, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação do tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, uma retardação da nossa experiência do tempo, e com isso, o renovamento da nossa sensação de vida em geral.
Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer: vigoroso e amplo. Isso se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante.
Verdade é que a vitalização de nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão.
E o senso de tempo de quem já está fatigado pela idade, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital -, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite".
Achei muito interessante este fragmento sobre o Tempo.
Temos o costume de pensar que aqueles momentos fatigantes demoram mais a passar, enquanto que, aqueles repletos de novidades e acontecimentos correm como água. Mas, quando olhamos para trás, o que fica são os momentos mais vividos, então esses se tormam mais extensos. Aquilo que vira rotina fica na mente como uma fração "resumida" do tempo - pode ter sido mais, mas vira menos quando tentamos lembrar. Pra sentir então o tempo, seria preciso criar situações marcantes, é isso que vai ficar e constituir um valor às lembranças. Disso decorre o valor de uma viagem, de uma nova leitura, uma descoberta. São essas escolhas que formam e recheiam a nossa mente quando fechamos os olhos. Do nada, resta apenas o nada.
Poesia - Christina Rossetti
(Fotografia - Arquivo pessoal)
Beleza, juventude, dia a dia;
Jamais há vida sem interrupção.
O Olho embaça, grisalho está o cabelo,
Sem ter ganho coroa ou laurel?
Fecho na primavera e broto em maio:
Tu, raiz doente, tua decomposição
Não renovarás sobre o meu seio.
Então, respondi: Sim.
Tudo passa, minha Alma diz, tudo passa:
Com a carca de medo e de esperança,
De labor e lazer, ouve o passado:
Ferrugem em teu ouro, traça em teu traje,
Teu broto tem praga, a folha apodrece.
À meia-noite, ao alvorecer, um dia,
Eis que surge o Noivo, e sem demora;
Fica atenta e reza.
Então, respondi: Sim.
Tudo passa, meu Deus diz, tudo passa:
O inverno passa, após longa demora;
Novas uvas na vinha, novos figos,
Aves chamam aves no Céu de maio.
Demoro, mas espera-me, confia,
Observa e reza. Levanta, é dia,
Amor, irmã, esposa, então direi.
Então, respondi: Sim.
(Christina Rossetti)
Filme - Whisky
Seleção oficial
FESTIVAL DE CANNES 2004
(Prêmio de Fipresci - Melhor filme pela crítica internacional)
A história se passa em Montevidéu, onde vive Jacobo (Andres Pazos), um homem de 60 anos que vive sozinho desde a morte de sua mãe. Desde então sua única atividade na vida é a pequena fábrica de meias que possui. Marta (Mirella Pascual) é uma mulher de 48 anos que é o braço direito de Jacobo na fábrica, onde trabalha como supervisora. Marta e Jacobo possuem uma espécie de dependência mútua, apesar dos assuntos entre eles sempre ficarem em torno de trabalho. Até que um dia Herman (Jorge Bolani), o irmão de Jacobo, avisa que irá a Montevidéu para participar da matzeiva, uma celebração judaica para a colocação da pedra do túmulo em até um ano após a morte de uma pessoa. Herman não vai a Montevidéu há mais de 20 anos, tendo faltado até mesmo ao funeral de sua mãe, sendo que também tem uma pequena fábrica de meias, localizada no Brasil. A visita de Herman desperta em Jacobo a velha competição existente entre os irmãos, que faz com que ele faça a Marta uma proposta inusitada: que ela seja sua esposa durante a visita de Herman. Marta aceita a proposta. Ela passa então a morar no apartamento de Jacobo, onde ambos passam a se dedicar em enganar Herman durante sua estadia.
É um filme calmo. A sensação é que acabamos de ler um livro sobre uma história que poderia ser banal a qualquer um. A questão da repetição diária, as mesmas cenas, as mesmas palavras. Algo que percebemos mais através desse filme. Nada de grandes enfeites, apenas a vida de duas pessoas que transcorre em sua "quase" normalidade.
O final é surpreendente!
"Me dizia que eles (...) contavam com os recursos para levar uma vida ideal, mas em vez de desfrutar o que tinham, Lori sofria pelo que faltava".
(Isabel Allende - trecho do livro "A sombra dos dias")
Para você
(Pôr do sol - Sítio do seu Luíz)
A sós
Escuto o ventoneste mau tempo.
Na solidão
qual seria a melhor companhia
do que um refrão?
São 21:17h
Estou cansada
Embalada pela noite
Escrevo, penso, pondero
Desejando e expondo o quanto quero
Tocar forte a vida
Sou feliz
Sou eu, sou atriz,
Uma aprendiz.
Porque tenho que procurar as palavras assim, dentro de mim?
São tantas e tão diferentes
Algumas ausentes
Outras, persistentes
Porque gosto de rimar?
Parece que estou a cantar!
A palavra que é forte
Já tem o poder
Amar, sofrer, viver
Ficar, ir, permanecer
Anoitece e amanhece
Tudo se repete, quase igual
Mas é tão bom
Não faz mal
Enquanto somos nós que escolhemos
o momento que temos
Tudo pode ir assim,
você londe e perto de mim
Dias de calor, outros de frio
Branco, gelado, molhado
Por vezes, paro e desejo
Simplesmente passear
Em algum lugar particular
Onde os pássaros estão a gorgear
No infinito dos caminhos
Apenas boa energia
Nada de nostalgia
Apenas perceber
Sentir e Ser
Aquilo que se pode querer.
(LCK)
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