Escolher é refazer. Palavras são soltas. Pensamentos são expressos. Gestos são construídos. O que é a vida além das escolhas? Primar então, pelo melhor, é buscar ultrapassar o simplesmente simplório. Almejar o além, uma transmutação, crisalidar. Reunir o que se admira. A arte maior está em fazer da própria existência algo único. Alma incandescente que aspira por uma obra maior. "A VIDA É CURTA DEMAIS PARA SER PEQUENA" (Disraeli)
Muito bom...
| Analisando bem, o seu problema pode estar no sapato. Verifique isso. Talvez ele não lhe aperte o pé, mas, com certeza, o salto de seu sapato é muito alto, e isso tende a desestabilizá-la. Pessoas como a senhora, apesar de sua inteligência, charme e escolaridade, por vezes não podem ver uma coisa tão simples como essa, a menos que se disponham a colocar-se de lado e observar a altura do salto do sapato em frente ao mesmo espelho que reflete ainda a beleza de sua juventude. A senhora, sim, é jovem, é bonita, além de competente e bem intencionada, quero crer. Mas o seu problema é o salto. Ele é alto, ele é desproporcional aos nossos olhos que não descolam deste detalhe enquanto a senhora fala meneando a cabeça em garbosos gestos que ninguém vê – ou não gosta de ver. E assim, a tudo que possa a senhora querer dizer, as pessoas não dão importância, ou não entendem, porque ficam fixadas na altura do salto de seu sapato, dispersando a atenção que deveriam dar-lhe. Saiba, senhora - se me permite dizê-lo -, a gente daqui é muito simples, algumas até preconceituosas em relação a estrangeiros, o que em nada é louvável – suponho -, mas, ainda assim, a gente daqui sente um certo orgulho de suas façanhas que servem de modelo a toda a terra, tirante esses últimos acontecimentos que têm assolado a nossa honra. Se pudesse dar-lhe um conselho sincero e amigo, eu diria à senhora para calçar outro tipo de sapato. Talvez não lhe parecesse tão elegante à primeira vista, assim que a senhora se mirasse no espelho, mas tal providência, ao aparentemente diminuir sua estatura física, aumentaria a humana, colocando-a no mesmo nível de nossos olhos, assim como gostaríamos de falar com nossos interlocutores, isto é, sem termos de elevar a cabeça como se a eleva ao bom Deus que – seja Ele qual for –, não pertence a este reino da Província de São Pedro. Faça o teste, senhora, e verá que posso ter alguma razão no que lhe escrevo. A senhora então sentirá um certo alívio, parecerá navegar nas nuvens, estará bem mais confortável, tudo sorrirá à sua volta. Os inimigos passarão a respeitá-la, ao invés de tão somente criticá-la. Os amigos serão mais amigos, e os falsos cessarão o fogo-amigo. Faça o teste, senhora, um sapato com salto mais baixo – providência tão simples - lhe fará muito bem. Respeitosamente, o seu sapateiro. |
Paulo C. Amaral
Artista plástico e escritor |
Um poema
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Álvaro de Campos
...
Antes que Seja Tarde
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
ZEITGEIST
"O finito não tem ser genuíno".
(Hegel)
Provavelmente muitos de nós acompanhamos esses documentários.
Eu já assisti a vários, mas somente agora li a introdução de seu autor. Penso que vale a pena essa página antes de adentrar nas profundezas de seus longas insólitos.
Zeitgeist (termo alemão). Na atualidade sinônimo de polêmicos documentários.
Ver Hegel, Filosofia da História. "Genius seculi".
(Hegel)
Provavelmente muitos de nós acompanhamos esses documentários.
Eu já assisti a vários, mas somente agora li a introdução de seu autor. Penso que vale a pena essa página antes de adentrar nas profundezas de seus longas insólitos.
Zeitgeist (termo alemão). Na atualidade sinônimo de polêmicos documentários.
Ver Hegel, Filosofia da História. "Genius seculi".
"NÃO TOMAMOS AS DECISÕES, NÓS CHEGAMOS A ELAS"
"Tudo o que existe é resultado de um processo". Hegel
Toda mudança histórica é vista, por Hegel, como Geist. Significa o meio caminho entre espírito e mente - suas conotações são mais mentais do que nosso termo "espírito", e mais espirituais do que nosso termo "mente".
Geist é a existência mesma, a essência última do ser; e o processo histórico inteiro que constitui a realidade é o desenvolvimento do "Geist" rumo à autoconsciência e ao autoconhecimento.
Quando este estado for alcançado, tudo o que existe será harmoniosamente um só consigo mesmo.
Hegel chamava essa unidade autoconsciente de tudo de "O Absoluto". Por ver a essência do que existe como algo não-material, sua filosofia ficou conhecida como "idealismo absoluto".
O próprio filósofo combinou esse tema com a crença no cristianismo, mas alguns de seus seguidores abraçaram-na como um tipo de panteísmo, e outros, como uma espécie de religião sem Deus.
O mais radical deles todos - Marx, assumiu a maioria das ideias de Hegel, mas afirmou que o sujeito de todo o processo histórico não era nada mental ou espiritual, mas material. (Bryan Magee)"Tudo o que existe é resultado de um processo". Hegel
Très joli...
Avec le temps
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Même les plus chouettes souv'nirs ça t'as une de ces gueules
A la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
Avec le temps, va, tout va bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment... avec le temps... on n'aime plus
Com o Passar do Tempo
Com o passar do tempo
Com o passar do tempo tudo vai embora
Esquecemos o rosto e esquecemos a voz
O coração, quando deixa de bater, não vale a pena
Procurar mais longe, é preciso deixar andar, e está muito bem.
Com o passar do tempo,
Com o passar do tempo tudo vai embora,
Aquela que adorávamos, que procurávamos à chuva,
Aquela que para nós era uma deusa, na volta de um olhar,
Entre as palavras, nas entrelinhas e sob a sombra
De um juramento maquiado que parte para ir dormir
Com o tempo, tudo desaparece.
Com o passar do tempo
Com o passar do tempo tudo vai embora,
Mesmo as recordações mais ternas tornam-se para ti momentos de vitória
Na galeria que eu remexo nos raios da morte
Sábado à noite, quando a ternura parte sozinha.
Com o passar do tempo,
Com o passar do tempo tudo vai embora,
Aquela em que acreditávamos, por uma constipação, por um nada
Aquela a quem dávamos vento e jóias,
Por quem teríamos vendido a alma por cêntimos
Frente a quem nos arrastávamos, como se arrastam os cães
Conforme o tempo passa, tudo fica bem
Com o passar do tempo
Com o passar do tempo tudo vai embora,
Esquecemos as paixões e esquecemos as vozes
Que vos sussurravam palavras de gente pobre,
Não venhas tarde, e sobretudo, não apanhes frio
Com o passar do tempo
Com o passar do tempo tudo vai embora
E sentimo-nos esmagados,qual cavalo exausto,
E sentimo-nos gelados numa cama de acaso
E sentimo-nos sós, talvez, mas, mas confortáveis
E sentimo-nos enganados pelos anos perdidos
Então, realmente ... com o tempo ... deixamos de amar.
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