Escolher é refazer. Palavras são soltas. Pensamentos são expressos. Gestos são construídos. O que é a vida além das escolhas? Primar então, pelo melhor, é buscar ultrapassar o simplesmente simplório. Almejar o além, uma transmutação, crisalidar. Reunir o que se admira. A arte maior está em fazer da própria existência algo único. Alma incandescente que aspira por uma obra maior. "A VIDA É CURTA DEMAIS PARA SER PEQUENA" (Disraeli)
A Fonte da Donzela (1960)
Pássaro que voa acha comida.
Pássaro que fica parado, morre.
Não foi um dos meus filmes preferidos de Bergman, mas mesmo assim, valeu. Como o previsto, trata de questões religiosas, apegos, valores, rancor e compaixão. É como se tudo na vida fosse causado por uma vontade divina. Se é assim, como responder ao horror com o mesmo ódio? Dar o troco, na mesma moeda, corresponde a um drama perpétuo. Enquanto aquele que é mau (por natureza) tem seu sono tranquilo; o outro - o vingador, paga com a culpa eterna (por que é bom). Na Suécia do século XIV, Töre e sua mulher Märeta formam um casal que tem uma propriedade rural. Cristãos fervorosos, incumbem sua filha única, Karin, uma bela adolescente virgem, de quinze anos, de levar velas à igreja do vilarejo próximo e acendê-las em louvor à Virgem Maria.
Com licença da mãe, ela veste seu mais valioso vestido e parte, a cavalo, através de uma floresta, para realizar a missão a ela confiada. Acompanhando-a, segue ao seu lado, Ingeri, uma criada tida como filha adotiva do casal Töre, que se esta grávida (segundo ela, foi forçada a isso). Ingeri é rancorosa, vê na sua má sorte um desprezo pela vida (e por Karin). A donzela, que é reflexo de toda uma pureza que vai além de qualquer personagem atuante.
No caminho, ao passarem por um culto de magia, Ingeri diz à Karin que vai voltar, por achar que anoitecerá antes que elas consigam chegar à igreja. Decidida a atender ao pedido dos pais, Karin segue em frente sozinha. Enquanto isso, movida por um enorme ciúme que sente da jovem, Ingeri participa de um ritual do culto a Odin, com a intenção de que algo de mal ocorra à Karin. Em seguida, passa a acompanhá-la, mantendo uma certa distância da jovem.
Ao encontrar dois pastores de cabras e um garoto, Karin os convida para dividir uma refeição que sua mãe havia preparado para ela. Em seguida, é agredida sexualmente pelos dois homens, os quais, após estuprá-la, a matam com um porrete. Ingeri apenas assiste a tudo.
Quando a noite cai, ironicamente os criminosos vão pedir comida e abrigo aos pais de Karin. São recebidos cordialmente e, depois de acomodá-los, Töre lhes promete trabalho. Märeta mostra-se nervosa, pois a filha ainda não retornou da igreja, mas o marido tenta tranqüilizá-la dizendo-lhe que em outras ocasiões Karin dormiu no lugarejo.Durante a noite, o irmão mais jovem não consegue jantar e seus sonhos são atordoantes. Eis então, que o garoto olha para o fogo e surge em sua mente a realidade.
Um homem demonstrando piedade lhe diz:"Veja como é a fumaça, tremula pelo teto...como se estivesse com medo.Mas ela só precisa do ar...e lá fora, ela tem todo o espaço para si.Mas ela não sabe disso...por isso fica aqui, trêmula, pressa sob o telhado.Acontece o mesmo com o homem.Ele treme como uma folha ao vento...pelas coisas que sabe e que não sabe.Você tem que atravessar sobre um tronco fino. Tão fino, que não saberá onde se segurar pra não cair.Sob você, há um rio...um rio negro que quer engolir você.Mas você sai ileso.Agora há uma vala à sua frente...tão profunda que não consegue ver o fundo.
Mãos se estendem para você, mas não conseguem alcançá-lo.
Finalmente, você se vê diante de uma montanha de horror. Ela cospe um fogo ardente... e um buraco assustador se abre. Chamas de todas as cores saem dele - cobre, ferro... azul vitríolo e amarelo-esverdeado. Raios saem das chamas que cegam e correm as rochas... e homens parecem indefesos como formigas. Esta fornalha... devora assassinos e estupradores. Quando você acha que está perdido uma mão o agarra... e um braço o abraça e o leva para longe... onde o mal não terá mais poder sobre você".
O temor da mãe se concretiza quando um dos pastores, sem imaginar onde se encontram, tenta vender, à Märeta, um vestido que alega ter sido de uma irmã dele. Ela reconhece o vestido de sua filha e, controlando-se, promete-lhe friamente pensar no assunto e falar com o marido. Ao falar com Töre, os dois têm certeza do triste destino da filha, pois a peça acha-se suja de sangue.
Ao encontrar-se com Ingeri, Töre toma conhecimento dos detalhes do brutal ataque sofrido pela filha, que a levou à morte. A jovem pede-lhe perdão por se sentir culpada pelo ocorrido à Karin. Movido por um forte sentimento de vingança, Töre mata os dois criminosos e o menino.
Na manhã seguinte, guiados por Ingeri, todos seguem até o local onde se encontra o corpo de Karin. Enquanto Märeta abraça-se ao corpo da filha, Töre, em sua crise de desespero, interroga Deus sobre os motivos que o levaram a permitir tamanha tragédia. A seguir, entretanto, ele implora seu perdão por seus pecados e promete construir, com suas próprias mãos, uma igreja no local, em penitência por sua vingança sanguinária (especialmente pela morte do pequeno menino inocente).
Ao retirarem o corpo de Karin, surge milagrosamente uma fonte de água exatamente no local onde o mesmo se encontrava.Uma lenda medieval sueca inspirou a fábula "A Filha de Töre em Vangé". "A Fonte da Donzela", por sua vez, foi baseada nessa fábula. Realizado pelo grande mestre do cinema sueco, Ingmar Bergman, sua trama gira em torno de uma jovem adolescente e virgem que, ao ser estuprada e morta, faz surgir milagrosamente uma fonte de água no local do crime.
Soberbamente fotografado em preto-e-branco por Sven Nykvist, parceiro de Bergman em inúmeros filmes, esta magnífica produção carrega consigo uma mensagem de fé e esperança do homem, mesmo depois de passar por uma enorme tragédia.
Filosofando
O que vale a pena viver
Revendo artigos armazenados por algum motivo especial, me deparei com este, que hoje trouxe um significado ainda mais importante para mim. Espero que ele também possa fazer com que outras pessoas pensem sobre o assunto e que sejam mais atentas a construção de sua própria felicidade.
A medicina sempre se esforçou – e a ciência moderna tem conseguido – que vivamos mais.
Se apenas o tempo contasse, concluiríamos que todos os muito velhos foram modelos de felicidade, mas, infelizmente, esta equação não é tão simples e seguramente viver bem é mais importante que viver muito.
Este famoso conto da sabedoria árabe ilustra isso com genialidade.
Um homem inquieto conhecido como “O Buscador”, ouvira falar das belezas de Kammir, uma cidade do outro lado da fronteira, e decidiu conhecê-la. Depois de dois dias de marcha por caminhos pedregosos, divisou-a ao longe. Quando subia a colina em direção à cidade, exausto que estava, foi tomado de encantos por um lindo parque com árvores, flores e pássaros, muitos pássaros. Resolveu descansar um pouco naquele lugar.
Recostado numa árvore, percebeu que, ali no chão, havia uma placa, que dizia: “Abdul Tareg, viveu quatro anos, seis meses e três dias”. O homem se estremeceu ao perceber que aquela era uma lápide e sentiu pena ao pensar que a pobre criança vivera tão pouco. Foi quando percebeu que logo adiante havia outra placa que dizia: “Yamir Kalib, viveu cinco anos, oito meses e três semanas”.
Comocionado ao descobrir que aquele lindo lugar era um cemitério, passou a ler todas as placas, e, quando descobriu que quem havia vivido mais tempo mal ultrapassara os 11 anos, foi tomado de uma dor terrível. Sentou, e chorou.
Um velho zelador do cemitério, que passava por ali, não resistiu e perguntou:
“Por que chora, algum parente seu?”
“Não, não tenho nenhum parente neste lugar, mas queria saber que maldição há por aqui que os obrigou a construir um cemitério só para crianças?”
O velho riu, debochado, e explicou:
“Não há nenhuma maldição, o que temos aqui é uma tradição: quando fazemos quinze anos, nossos pais nos dão um caderno de couro como este que trago aqui pendurado no meu pescoço, vê? Quando nos acontece uma coisa boa, abrimos o caderninho e anotamos à esquerda, o ocorrido, e à direita, o tempo que durou o prazer que nos causou.
O primeiro beijo, quanto durou a emoção do primeiro beijo? O minuto e meio do beijo? Uma hora? Uma semana?
E o primeiro amor, por quanto tempo persistiu o indescritível encanto do primeiro amor?
E a empolgação do nascimento do primeiro filho?
E a viagem ao país distante?
E a volta do amigo querido?
Para cada um desses acontecimentos, anotamos o ocorrido e o tempo do desfrutado, por que, quando morremos, nossos amigos tomam nosso livreto, somam todos os momentos felizes e escrevem sobre nossas tumbas.
Porque, para nós, esse é o único e verdadeiro tempo vivido”.
J.J.Camargo – 11/08/2012
Hora, sabemos da extensa quantidade de textos que nos dizem pra relaxar e apresentam métodos de como viver melhor. Não acredito em fórmulas universais. Apesar dos males diversos, como a depressão, atingir a muitos, cada pessoa tem um papel fundamental na criação de sua própria realidade.
Fazer algo que dá prazer é realmente essencial para o bem estar. Obviamente, cada indivíduo admira determinadas facetas que lhes são únicas. Mas, nesse caderninho especial, não conta a repetição. Até mesmo os atos felizes são finitos. Não é atoa que aqueles que gostam de crianças, na sua maioria, tem mais de um filho. Ou quem gosta de viajar, faz uma única excursão. A novidade é algo muito importante para o pensamento. Foram raras as vezes que provei do mesmo prato e o segundo foi o mais saboroso. Ou ir no mesmo lugar. Ah, como é bom inaugurar aquela aquisição que você vislumbra pela primeira vez.
Mas, infelizmente, acomodação é uma grande vilã. Quando não criamos no nosso dia a dia, quem toma conta dos pensamentos, em grande parte, são as más recordações. O fulano que disse isso, a notícia desagradável, o restaurante cheio, a vendedora chata, o trânsito parado, o trabalho a terminar... As obrigações cotidianas deixam a vida sem graça – por mais que ela seja boa. Quebrar o círculo vicioso é uma atitude que pode enriquecer uma vida.
É da condição humana sua brevidade, então... , estar atento a esse restrito período de tempo sob a luz, é uma dádiva que só cabe a nós a responsabilidade.
Nietzsche, em Assim falava Zaratustra, lança um desafio a todos nós, ao sustentar a tão já mencionada lei do eterno retorno.
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vires agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequencia – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”
Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim?
Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse”.
O que se destaca nessa vontade filosófica é a superação – a fuga das preocupações triviais.
Crie o destino que você possa amar.
O que somos? É apenas o que somos que verdadeiramente importa. Uma boa consciência, diz Schopenhauer, significa mais do que uma boa reputação. Nossa maior meta deve ser a boa saúde e a riqueza intelectual , que levam a uma fonte inesgotável de idéias, à independência e a vida moral. A tranquilidade interna advém da sabedoria “de que não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas”.
Fotografia: LisianeCK
Revendo artigos armazenados por algum motivo especial, me deparei com este, que hoje trouxe um significado ainda mais importante para mim. Espero que ele também possa fazer com que outras pessoas pensem sobre o assunto e que sejam mais atentas a construção de sua própria felicidade.
A medicina sempre se esforçou – e a ciência moderna tem conseguido – que vivamos mais.
Se apenas o tempo contasse, concluiríamos que todos os muito velhos foram modelos de felicidade, mas, infelizmente, esta equação não é tão simples e seguramente viver bem é mais importante que viver muito.
Este famoso conto da sabedoria árabe ilustra isso com genialidade.
Um homem inquieto conhecido como “O Buscador”, ouvira falar das belezas de Kammir, uma cidade do outro lado da fronteira, e decidiu conhecê-la. Depois de dois dias de marcha por caminhos pedregosos, divisou-a ao longe. Quando subia a colina em direção à cidade, exausto que estava, foi tomado de encantos por um lindo parque com árvores, flores e pássaros, muitos pássaros. Resolveu descansar um pouco naquele lugar.
Recostado numa árvore, percebeu que, ali no chão, havia uma placa, que dizia: “Abdul Tareg, viveu quatro anos, seis meses e três dias”. O homem se estremeceu ao perceber que aquela era uma lápide e sentiu pena ao pensar que a pobre criança vivera tão pouco. Foi quando percebeu que logo adiante havia outra placa que dizia: “Yamir Kalib, viveu cinco anos, oito meses e três semanas”.
Comocionado ao descobrir que aquele lindo lugar era um cemitério, passou a ler todas as placas, e, quando descobriu que quem havia vivido mais tempo mal ultrapassara os 11 anos, foi tomado de uma dor terrível. Sentou, e chorou.
Um velho zelador do cemitério, que passava por ali, não resistiu e perguntou:
“Por que chora, algum parente seu?”
“Não, não tenho nenhum parente neste lugar, mas queria saber que maldição há por aqui que os obrigou a construir um cemitério só para crianças?”
O velho riu, debochado, e explicou:
“Não há nenhuma maldição, o que temos aqui é uma tradição: quando fazemos quinze anos, nossos pais nos dão um caderno de couro como este que trago aqui pendurado no meu pescoço, vê? Quando nos acontece uma coisa boa, abrimos o caderninho e anotamos à esquerda, o ocorrido, e à direita, o tempo que durou o prazer que nos causou.
O primeiro beijo, quanto durou a emoção do primeiro beijo? O minuto e meio do beijo? Uma hora? Uma semana?
E o primeiro amor, por quanto tempo persistiu o indescritível encanto do primeiro amor?
E a empolgação do nascimento do primeiro filho?
E a viagem ao país distante?
E a volta do amigo querido?
Para cada um desses acontecimentos, anotamos o ocorrido e o tempo do desfrutado, por que, quando morremos, nossos amigos tomam nosso livreto, somam todos os momentos felizes e escrevem sobre nossas tumbas.
Porque, para nós, esse é o único e verdadeiro tempo vivido”.
J.J.Camargo – 11/08/2012
Hora, sabemos da extensa quantidade de textos que nos dizem pra relaxar e apresentam métodos de como viver melhor. Não acredito em fórmulas universais. Apesar dos males diversos, como a depressão, atingir a muitos, cada pessoa tem um papel fundamental na criação de sua própria realidade.
Fazer algo que dá prazer é realmente essencial para o bem estar. Obviamente, cada indivíduo admira determinadas facetas que lhes são únicas. Mas, nesse caderninho especial, não conta a repetição. Até mesmo os atos felizes são finitos. Não é atoa que aqueles que gostam de crianças, na sua maioria, tem mais de um filho. Ou quem gosta de viajar, faz uma única excursão. A novidade é algo muito importante para o pensamento. Foram raras as vezes que provei do mesmo prato e o segundo foi o mais saboroso. Ou ir no mesmo lugar. Ah, como é bom inaugurar aquela aquisição que você vislumbra pela primeira vez.
Mas, infelizmente, acomodação é uma grande vilã. Quando não criamos no nosso dia a dia, quem toma conta dos pensamentos, em grande parte, são as más recordações. O fulano que disse isso, a notícia desagradável, o restaurante cheio, a vendedora chata, o trânsito parado, o trabalho a terminar... As obrigações cotidianas deixam a vida sem graça – por mais que ela seja boa. Quebrar o círculo vicioso é uma atitude que pode enriquecer uma vida.
É da condição humana sua brevidade, então... , estar atento a esse restrito período de tempo sob a luz, é uma dádiva que só cabe a nós a responsabilidade.
Nietzsche, em Assim falava Zaratustra, lança um desafio a todos nós, ao sustentar a tão já mencionada lei do eterno retorno.
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vires agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequencia – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”
Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim?
Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse”.
O que se destaca nessa vontade filosófica é a superação – a fuga das preocupações triviais.
Crie o destino que você possa amar.
O que somos? É apenas o que somos que verdadeiramente importa. Uma boa consciência, diz Schopenhauer, significa mais do que uma boa reputação. Nossa maior meta deve ser a boa saúde e a riqueza intelectual , que levam a uma fonte inesgotável de idéias, à independência e a vida moral. A tranquilidade interna advém da sabedoria “de que não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas”.
Lavores
Escolhi um destino que estivesse a minha altura
Rumei ao sul
Depois ao centro
Conheci os nortes
Vi poeira, simplicidade e afago
Fogueira, fagulhas e fumaça
Depois prédios, burocracia e nevoeiros
Lá fora, arbustos cresciam viçosos
Gafanhotos tocavam
Sapos eram os clássicos na lagoa
E os vagalumes - o maior show noturno
E todos profetizavam...
Vi ventos fortes
Tempestades
Raios
Trovões
Relâmpagos
Tive medo
Conforto
E todos profetizavam...
Vi céu azul
Grama verde
Árvores frutíferas
Terra vermelha
Cerros de pedras
E uma explosão de estrelas
E todos ...
Vi simplicidade
Vi uma menina crescer
E depois não se reconhecer
Vi gente
de todos os gostos
tipos e
profissões
rico
pobre
moribundo
Vi a cerca sendo feita
A formiga devorando a plantação
O milho crescendo
e brinquei em seus cabelos
Vi o gira-sol
e outras flores
Pitangueira
Pessegueiro
Parreira
Limoeiro
Laranjeira
Amexeira
Abacateiro
Macieira
Pereira
Tudo eu vi lá
Funcho
Alecrim
Alfazema
Erva-doce
Erva-cidreira
Cebolinha
Salsinha
Guaco
Alho
Cebola
Feijão
Arroz
Milho
Soja
Mandioca
Melão
Melancia
Abobrinha
Brócolis
Couve-flor
Tomate
Rúcula
Alface
Couve
Radite
Tudo eu vi lá
Ovos
Leite
Mel...
Vi vaca
cavalo
porco
ovelha
galinha
galo
garnisé
seriema
gato
cachorro
camundongo
preá
pulga
lambari
cascudo
piranha
carpa
traíra
mosca
mosquito
tartaruga
borboleta
abelha
carrapato
mutuca
pulga
cobra
escorpião
lagarto
lebre
gambá
paca
e tamanduá
Tudo isso eu já vi lá
E sempre senti que pereceria...
Tudo fez e faz parte do fim inexorável
Então
Peguei meu destino
amarrei-o ao pescoço
e corri...
Pois tudo que era pra ver lá,
Eu já vi
E agora que cheguei ao futuro
Há uma possibilidade experiencial
E aqui ficarei
Tão reta como uma pincelada na tela virgem
Como tudo o que escolhi
e que posso ter a sorte de citar
Não penso em imortalidade
E nem mesmo na solidão -
na média, ela vem quando estamos acompanhados.
na média, ela vem quando estamos acompanhados.
Doei parte de minha vida a esta linha, a esta agulha veloz, forte e autêntica (como Arseni)
porém eu sei - "Eu já vi" - que a pétala é tão frágil que ao menor contato pode se romper.
Quero estar longe nesse momento - daqui pra frente só vou avaliar o que é bom pra nós.
Digo isso, em comunhão com esse novelo de tantas linhas; mesmo que vez ou outra, tecituras diversas venham retirar a pluma de nosso tão caro edredon.
Artinha...
E assim começa a história da moça mulher.
Minhas mãos estão grossas. O polegar direito exibe um inchaço causado pelo esteco. As esculturas também estão lá.
Agora, dormem.
Aguardam o tempo...
Logo, estarão secas.
Queimam. E voltam. Mais fortes.
Depois, coloco a cor.
Olho os detalhes.
E mais uma vez, vem o tempo da secagem.
Pronto.
São dois olhos a percorrer os lugares - os meus - ou são olhos outros?
Já não sei a diferença.
Aonde colocá-la?
Essa casa já parece um queijo suiço!
A parede está tranquila.
Estranhamente ela não parece lamentar a solidão.
Mas aqueles olhos famintos logo encontraram um espaço possível.
A parede não se alimenta mais de quadros - quer mais.
Ou não.
Mas que seja grande.
Distinto.
Que valha a presença...
Será um fim?
Ou um início?
Porquê dessa insatisfação com uma arte que não se sabe insatisfeita?
Nostalghia
Itália/URSS - 1983.
Não é um filme fácil. Exige atenção ao observar a quantidade de detalhes. Há que escutar as palavras enigmáticas dos personagens como se fossem setas de um caminho.
Como os demais filmes de Tarkovski, este exige contemplação, calma, ausência de pensamentos inoportunos.
Meu primeiro contato com este escritor-diretor foi na Biblioteca de Artes quando conheci seu livro "Esculpir o tempo" - que já diz tudo sobre seus longas. Que alegria ler essa aproximação: ESCULPIR O TEMPO. Foi este livro o primeiro botão a surgir no meu jardim - ou o primeiro torão que tropecei à esquerda da estrada.
Esculpir o tempo. A matéria. A energia. O ser. Tudo. Pensar sobre essas relações não é fugir da vida - devanear. Ao contrário. Como é bom perceber o tempo...
Estar atento a este instante. Fragmentos. Segundos...
Esculpir o tempo é fazer o que acredita ser o melhor, não importa a matéria prima.
Nostalghia e Tempo di Viaggio foram os dois últimos filmes realizados por Tarkovsky (ou Tarkovski) antes de sua fuga da União Soviética. Sua obra foi proibida e morreu exilado - longe da terra que tanto amava. Apenas pelo título já dá pra perceber o quando arte e vida se confundem perante à exposição pública.
O mais interessante no trabalho de Tarkovsky é o olhar atento ao ser humano, ao embrião desnudo - o dentro, a essência das construções que formam um pensar. Ele nos leva a contemplar a natureza no pormenor, a explorar o divino que cerca a vida como um todo.
No filme em questão, temos como personagem principal Andrei Gorchakov, um poeta russo que viaja à Itália para escrever uma biografia de um músico russo que esteve na região durante o século XVII.
Acompanha-o Eugenia, sua tradutora.
No início, vemos apenas a bela Eugenia e Andrei que atravessam a Itália até chegar a um pequeno povoado logo ao Sul. O alvo é visitar a Madre Santa e o vilarejo onde esteve Sosnovsky (o músico). Uma bruma toma conta de toda a paisagem. Ao pararem o carro, Eugenia corre até o Mosteiro. O padre logo lhe pergunta o motivo de sua presença. Para ele, as mulheres vão até aquele lugar pra orar e pedir por filhos. Mas não. Eugenia diz estar ali apenas por curiosidade. Então o pastor responde que ela está sendo egoísta, que todos querem algo e ela quer ser feliz. Mas há coisas mais importantes, na visão do pároco, do que ser feliz - é ter filhos, criá-los com paciência e sacrifício.
Eugenia vai embora. No caminho, pergunta ao companheiro porque ele não quis entrar. Não é do meu interesse, diz ele.
No início, vemos apenas a bela Eugenia e Andrei que atravessam a Itália até chegar a um pequeno povoado logo ao Sul. O alvo é visitar a Madre Santa e o vilarejo onde esteve Sosnovsky (o músico). Uma bruma toma conta de toda a paisagem. Ao pararem o carro, Eugenia corre até o Mosteiro. O padre logo lhe pergunta o motivo de sua presença. Para ele, as mulheres vão até aquele lugar pra orar e pedir por filhos. Mas não. Eugenia diz estar ali apenas por curiosidade. Então o pastor responde que ela está sendo egoísta, que todos querem algo e ela quer ser feliz. Mas há coisas mais importantes, na visão do pároco, do que ser feliz - é ter filhos, criá-los com paciência e sacrifício.
Eugenia vai embora. No caminho, pergunta ao companheiro porque ele não quis entrar. Não é do meu interesse, diz ele.
Já na pousada, Eugenia lê poesias de Arseni Tarkovski - uma tradução (não no seu original Russo). Para Andrei, a poesia é intraduzível - assim como toda a arte.
Nesse instante do filme, Eugenia apenas diz que está lendo Arseni, mas não especifica o tema. Na minha opinião, após ler algumas traduções, trata-se desta:
[... ]
Nesse instante do filme, Eugenia apenas diz que está lendo Arseni, mas não especifica o tema. Na minha opinião, após ler algumas traduções, trata-se desta:
[... ]
"Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém...
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém...
Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão".
Dois motivos me levaram a essa possibilidade. Um, Eugenia estava apaixonada pelo taciturno Andrei. Dois, após sair da sala, ela segura o vestido e ensaia uma brincadeira no corredor, sorri e sobe as escadas correndo - dois degraus por vez. Além disso, espelhos e umidade fazem parte de todo o filme - além das incontáveis portas. Arcos. Túneis.
Na parede está gravado: 1+1 = 1
Goteiras e mais goteiras. Garrafas de todos os tamanhos e cores tentam aparar a água. Inútil. O salão, onde mora Domenico é tão grande e cheio de enigmas que nos levam a uma metáfora acerca do dentro e fora. Observando o interior da "casa" de Domenico o que tem maior realce é a cama - o único lugar aparentemente seco (mas há uma bolha de água logo acima prestes a romper). Logo após, seguindo Andrei, na metade do caminho - ainda no interior - há uma parede demolida. Tudo está ao chão, mas entre todo o espaço em aberto, Domenico segue a Andrei através da porta - a única estrutura que se encontra em pé. O que isso mostra? A escolha do caminho único que se poderia seguir? Vemos que ele escolheu o mais difícil. Porque abrir a porta e seguir a Andrei quando todo o restante do espaço está sem obstáculo algum?
É muito fantástico tudo isso.
Será que Gorchakov, Domenico e Tarkovski eram as mesmas pessoas? São claras as relações. Diferente de escritores que podem criar histórias totalmente adversas à experiência, Tarkovski cria personagens que habitam em sua própria mente. Domenico que manteve sua família reclusa, é como Tarkovski que obrigou a família ao exílio por conta de sua obra. Gorchakov é o escritor, assim como foi Tarkovski - "Necessitamos de ideias grandes!"
- "Eu era egoísta, gostaria de salvar a minha família. Todos devem ser salvos no mundo."
O final é lindo. O jogo das luzes que atuam em caminhos adversos - aquele que se salva pela chama da fé (do divino) e aquele que acende fogo em seu próprio corpo. Esculturas estáticas de humanos acompanham tudo como se estivessem dentro de uma cena teatral - indiferentes.
Exemplos manifestam a adversidade: uma mulher passa batom no espelho (em total descaso) enquanto o homem pega fogo. Um louco aos pés do cavalo em bronze, reproduz a dor da morte - e brinca tal qual um intérprete teatral.
Apenas o cão, foi o único a manifestar-se perante ao angustiante e intenso final.
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão".
Dois motivos me levaram a essa possibilidade. Um, Eugenia estava apaixonada pelo taciturno Andrei. Dois, após sair da sala, ela segura o vestido e ensaia uma brincadeira no corredor, sorri e sobe as escadas correndo - dois degraus por vez. Além disso, espelhos e umidade fazem parte de todo o filme - além das incontáveis portas. Arcos. Túneis.
Escolhas, escolhas, escolhas...
Há cenas de passagem lenta. O foco está na minúcia dos detalhes. Os sons naturais são intensificados. O barulho da água, os passos no assoalho, o vento, até o acender de uma lâmpada ganha um ruído fora do comum.
Andrei é tomado por melancolia, a forte chuva acentua a solidão. Deita-se na cama de qualquer forma, tem pesadelos. Um cão (que aparece - e desde então segue todo o filme) surge e o conforta.
Na pousada tem uma piscina com águas termais. Um grupo toma banho. Sempre há uma bruma. Andrei fala com o cão [mais ou menos assim - transcrevo o que lembro dos diálogos]:
- Sabe porque todas essas pessoas estão lá dentro?
- Querem viver eternamente.
- Olha-os! Olha-os!
É então que aparece nosso segundo personagem - Domenico.
E a cena segue com uma interessante abordagem.
Domenico sai na piscina, vê Eugenia e diz:
- "Senhorita!
- Eu não fumo, mas pode dar-me um cigarro?"
Ela:
- "Sim, é claro, se não fumas..." [ela também não fumava]
Visto no lugar como um lunático, ninguém dá atenção ao velho Domenico. Apenas Andrei vê seu interesse despertado. "Imagina, um homem que trancou por sete anos sua família dentro de sua própria casa! Será por isso sua loucura? Sua solidão?"
Domenico diz após apontar para o céu:
"Tu eras o que não és. Mas eu sou o que és".
(Foi o que Deus disse a Santa Catarina).
Na seguinte conversa com a tradutora, Andrei diz:
- "O que é a loucura?
- São problemáticos? Inconvenientes?
- Pensamos poder entendê-los.
- Estão sós!
- Mas certamente estão mais próximos da verdade.
- Minha vida é normal, não há nada de interessante em um escritor russo".
Há uma mescla entre os personagens de Andrei e Domenico. Andrei sonha com a história de Domenico, como se fosse a dele - na velhice.
Há cenas de passagem lenta. O foco está na minúcia dos detalhes. Os sons naturais são intensificados. O barulho da água, os passos no assoalho, o vento, até o acender de uma lâmpada ganha um ruído fora do comum.
Andrei é tomado por melancolia, a forte chuva acentua a solidão. Deita-se na cama de qualquer forma, tem pesadelos. Um cão (que aparece - e desde então segue todo o filme) surge e o conforta.
Na pousada tem uma piscina com águas termais. Um grupo toma banho. Sempre há uma bruma. Andrei fala com o cão [mais ou menos assim - transcrevo o que lembro dos diálogos]:
- Sabe porque todas essas pessoas estão lá dentro?
- Querem viver eternamente.
- Olha-os! Olha-os!
É então que aparece nosso segundo personagem - Domenico.
E a cena segue com uma interessante abordagem.
Domenico sai na piscina, vê Eugenia e diz:
- "Senhorita!
- Eu não fumo, mas pode dar-me um cigarro?"
Ela:
- "Sim, é claro, se não fumas..." [ela também não fumava]
Visto no lugar como um lunático, ninguém dá atenção ao velho Domenico. Apenas Andrei vê seu interesse despertado. "Imagina, um homem que trancou por sete anos sua família dentro de sua própria casa! Será por isso sua loucura? Sua solidão?"
Domenico diz após apontar para o céu:
"Tu eras o que não és. Mas eu sou o que és".
(Foi o que Deus disse a Santa Catarina).
Na seguinte conversa com a tradutora, Andrei diz:
- "O que é a loucura?
- São problemáticos? Inconvenientes?
- Pensamos poder entendê-los.
- Estão sós!
- Mas certamente estão mais próximos da verdade.
- Minha vida é normal, não há nada de interessante em um escritor russo".
Há uma mescla entre os personagens de Andrei e Domenico. Andrei sonha com a história de Domenico, como se fosse a dele - na velhice.
Na parede está gravado: 1+1 = 1
Goteiras e mais goteiras. Garrafas de todos os tamanhos e cores tentam aparar a água. Inútil. O salão, onde mora Domenico é tão grande e cheio de enigmas que nos levam a uma metáfora acerca do dentro e fora. Observando o interior da "casa" de Domenico o que tem maior realce é a cama - o único lugar aparentemente seco (mas há uma bolha de água logo acima prestes a romper). Logo após, seguindo Andrei, na metade do caminho - ainda no interior - há uma parede demolida. Tudo está ao chão, mas entre todo o espaço em aberto, Domenico segue a Andrei através da porta - a única estrutura que se encontra em pé. O que isso mostra? A escolha do caminho único que se poderia seguir? Vemos que ele escolheu o mais difícil. Porque abrir a porta e seguir a Andrei quando todo o restante do espaço está sem obstáculo algum?
É muito fantástico tudo isso.
Será que Gorchakov, Domenico e Tarkovski eram as mesmas pessoas? São claras as relações. Diferente de escritores que podem criar histórias totalmente adversas à experiência, Tarkovski cria personagens que habitam em sua própria mente. Domenico que manteve sua família reclusa, é como Tarkovski que obrigou a família ao exílio por conta de sua obra. Gorchakov é o escritor, assim como foi Tarkovski - "Necessitamos de ideias grandes!"
- "Eu era egoísta, gostaria de salvar a minha família. Todos devem ser salvos no mundo."
O final é lindo. O jogo das luzes que atuam em caminhos adversos - aquele que se salva pela chama da fé (do divino) e aquele que acende fogo em seu próprio corpo. Esculturas estáticas de humanos acompanham tudo como se estivessem dentro de uma cena teatral - indiferentes.
Exemplos manifestam a adversidade: uma mulher passa batom no espelho (em total descaso) enquanto o homem pega fogo. Um louco aos pés do cavalo em bronze, reproduz a dor da morte - e brinca tal qual um intérprete teatral.
Apenas o cão, foi o único a manifestar-se perante ao angustiante e intenso final.
"No hay caminos, hay que caminar"
Andrei Tarkovski (1987)
Assinar:
Postagens (Atom)


