Escolher é refazer. Palavras são soltas. Pensamentos são expressos. Gestos são construídos. O que é a vida além das escolhas? Primar então, pelo melhor, é buscar ultrapassar o simplesmente simplório. Almejar o além, uma transmutação, crisalidar. Reunir o que se admira. A arte maior está em fazer da própria existência algo único. Alma incandescente que aspira por uma obra maior.
"A VIDA É CURTA DEMAIS PARA SER PEQUENA" (Disraeli)
Hoje ao arrumar o baú encontrei essas imagens do fotógrafo canadense Lawrence Godby de agosto de 2004 quando o levei pra conhecer Xico e seu atelier. Lawrence ficou tão encantado que desejou voltar alguns anos após pra elaborar um ensaio mais profissional e até um catálogo sobre o seu processo de trabalho. Infelizmente, não houve tempo. Mas já temos o principal sobre este artista em forma de uma linda lembrança que certamente irá permanecer em forma da mais pura energia que alguém já refletiu.
Feriado também lembra cinema. Filas. Salas lotadas. Multidões. Celular que não para. Ruídos de pipocas e balinhas. Mas é uma boa atração pra quem deseja quebrar a rotina.
Bem bonitinho o filme acima. Pelo menos foi possível assistir toda a história sem olhar para o relógio. Teve partes engraçadas e outras nem tanto. Mas um bom entretenimento que vale o tempo previsto.
George (Colin Firth) é gago desde a infância. Este é um sério problema para um integrante da realeza britânica, que frequentemente precisa fazer discursos. George procurou diversos médicos, mas nenhum deles trouxe resultados eficazes. Quando sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter), o leva até Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta de método pouco convencional, George está desesperançoso. Lionel se coloca de igual para igual com George e atua também como seu psicólogo. Seus exercícios e métodos fazem com que George adquira autoconfiança para cumprir o maior de seus desafios: assumir a coroa, após a abdicação de seu irmão David (Guy Pearce).
O que marcou de forma mais intensa na observação dos personagens foi o valor da diferença. Não importa quem você é ou o tamanho de seu sucesso e glória. O mérito está em ser alguma coisa, mesmo que pequena, mas que seja especial. Não ser nada é ser como uma grande parede em branco. Pode-se ainda preenchê-la, esta é a vantagem, e estar aberto a todas possibilidades. Ou então, já expressar as tintas que dão o tom de suas escolhas (de quem você é). No caso, os personagens principais descobriram que cada um tinha uma qualidade que o segundo desejava. Foi assim que ambos passaram a participar ativamente da vida do outro e acabaram como grandes amigos.
Na existência fora da tela também é assim, sempre há uma troca. Buscamos no diverso aquilo admiramos e que, muitas vezes, nos é deficiente. Eis a beleza da simbiose.
Ontem foi a vez de conhecer o Expresso Thay. Apenas a aproximadamente dez meses faz par ao restaurante Koo Pee Pee, na rua Schiller, em Porto Alegre. Adorei o atendimento. Desde o instante que telefonei (um dia antes) pra reservar um bom local, fui muito bem atendida. O restaurante é mais sóbrio que o tailandês ao lado, ponto positivo dentro do meu ponto de vista. Amplas janelas, luz ponderada, velas, detalhes nas paredes, plantas, muita madeira, cozinha aberta, música excelente e relaxante, pratos bem servidos. Na verdade, não há porque pedir duas variedades principais, apenas se tiver muita disposição. Uma saladinha de entrada e um prato quente são perfeitamente suficientes para dois. Como os demais especialistas nesta cozinha, todas as sugestões estão acompanhadas de uma, duas ou três pimentas. Meu prato tinha a referência de duas, porém tive que pedir um excedente, tal qual é a minha paixão pela especiaria. Na comparação preço com os demais thays fica bem na média. O grande destaque ficou para os "mojitos" ou (morritos) - bem melhores do que aqueles degustados em Cuba. Isso realmente é incrível. Interessante é quando comparamos com um restaurante francês ou os demais cheios de variedades. Aqui os pratos são simples e sóbrios, porém o sabor... Sentimos todos os condimentos especificados no menu. Uma delícia que segue o ditado - simples, mas não simplório.
Pad Prik Neua
Filé com alho, pimenta, folhas de limão, coentro, manjericão doce e arroz jasmin.
Hao Pad Nam Prik Goong Gai
Arroz frito com pasta de pimenta, vagem fina, camarão e frango.
Em casa, hora de desfrutar uma companhia muito especial. Esmeralda é uma linda gatinha que está passando uma temporada comigo. Optamos por aproveitar a calmaria do feriado de carnaval na cidade grande. Temos muito em comum, porém ela é muito mais introspectiva e cativante. Sempre na dela, não gosta de ruídos e carinho em excesso. Suave, delicada e meiga. Apenas busca o que é necessário e passa uma sabedoria digna de ser apreciada e seguida como exemplo. Adoro gatinhos (mas não teria um em definitivo). Ter qualquer animal exige muito compromisso. Presença e atenção constante. Uma responsabilidade que não deveria ser assumida por aqueles que pensam apenas no prazer próprio e colocam os bichinhos na esfera de um brinquedo consolador.
Brincadeirinhas...
Este casulo que apareceu em uma madeira está sob observação. Que tipo de borboleta virá? Todos os dias dou uma espiadinha. Como ele é lindo!
Nesse final de semana, com toda essa leveza tomando conta da cidade, uma bela canção se sobressai...
Para terminar com o nosso Harry, deixo ainda mais uma parte de suas reflexões (pra mim, uma das mais belas de todo o livro). Apesar de parecer que nosso personagem é um ser aflito e desiludido, na verdade são reflexões de alguém que sabe que pode mais. Segundo suas próprias palavras, ao contrário do que se pensa ao primeiro olhar leviano, trata-se de um ser que crê.
Profundo, melancólico e imensamente poético. Certamente Harry é muito mais interessante do que Philip Carey de Servidão Humana. Este último vive mais como nós, na condição da escravidão metafísica da vida e seus mistérios. É mais descritivo em detalhes, histórias e situações amorosas, enquanto que Harry é pura essência. Tanto é que ele pode ser o único em muitos dentro de sua própria criação.
Não posso negar que após cada uma dessas comoções de minha vida no final sempre me restava algum proveito, um pouco mais de liberdade, de espiritualidade, de profundidade, mas também de isolamento, de incompreensão, de frigidez. Visto do ângulo burguês, minha vida fora, de uma a outra dessas comoções, uma permanente descida, um afastamento cada vez maior do normal, do permitido, do são. Ao longo de alguns anos fiquei sem trabalho, sem família, sem lar; estava à margem de qualquer grupo social, sozinho, sem amor de ninguém; inspirava suspeita à muitos, estava em contínuo e amargo conflito com a opinião e a moral públicas, e embora continuasse vivendo na esfera burguesa, era, todavia, por minha maneira de pensar e de sentir, um estranho nesse mundo. Religião e pátria, família e Estado careciam de significação para mim e já nada me importava; a presunção da ciência, das profissões, das artes, me causava asco; meus pontos de vista, meu gosto, todo o meu pensamento, com o que em outras épocas brilhava como homem bem conceituado, tudo estava agora abandonado e embrutecido e causava suspeita a muita gente. Se em todas as minhas dolorosas transmutações adquirira algo de indizível e imponderável, caro tivera de pagá-lo, e em cada uma delas minha vida se tornara mais dura, mais difícil, mais solitária e perigosa. Na verdade, não tinha nenhum motivo para desejar a continuação desse caminho que me conduzia a atmosfera cada vez mais rarefeitas, semelhantes àquela fumaça da Canção de outono, de Nietzsche. Ah, sim, já conhecia esses acontecimentos, essas transformações que o destino reserva aos seus filhos diletos, aos mais difíceis de contentar; conhecia-os demasiadamente bem. Conhecia-os como um caçador diligente mas sem sorte conhece as etapas de uma caçada, como um velho jogador da Bolsa pode conhecer as etapas da especulação, do lucro, da insegurança, da insolvência, da bancarrota. Teria de voltar a sofrer tudo aquilo? Todo esse tormento, toda essa extraviada necessidade, todos esses olhares de vileza e pouco valor do próprio eu, toda essa terrível angústia diante do sucumbir, todo esse temor da morte? Não era mais prudente e simples impedir a repetição de tanta dor e sair de cena? Certamente, era mais simples e razoável. Fosse verdadeiro ou não o que diz o livrinho do Lobo da Estepe sobre o suicida, nada poderia impedir-me o prazer de matar-me com a ajuda do gás, da navalha ou da pistola, a repetição de um processo cujas amargas consequencias já tivera ocasião de experimentar tantas vezes e com tanta intensidade. Não, com todos os demônios, não havia nenhuma força no mundo que pudesse exigir de mim novamente o encontro com os horrores da morte, o ter de passar outra vez por uma nova conformação, uma nova encarnação, cujo fim não seriam já a paz e o descanso, mas sempre uma nova autoconformação! Embora o suicídio fosse estúpido, covarde e mesquinho; embora fosse uma saída de emergência difamante e vergonhosa para fugir ao torvelinho de dores, qualquer saída, ainda a mais ignominiosa, seria de desejar-se intimamente; não se tratava de nenhum drama de nobreza ou de heroísmo, aqui estaria eu diante da singela escolha entre uma dor passageira e leve e um sofrimento infinito e indizível. Não raro em minha vida - difícil e insensata - fui como o nobre Dom Quixote, preferindo a honra à comodidade e o heroísmo à razão! Mas já era tempo de acabar com isso!
Neste final de semana nos divertimos muito com esta pequena artista. Nandinha (com menos de três anos) adora cantar, tocar e sorrir para as fotografias. Os risos foram tantos porque ela pensava que o vídeo era uma espécie de foto constante. Pena é que ela ficou tímida ao ser filmada. Antes disso, muitas melodias nos alegraram naquele especial momento de inspiração.
Ela vai se divertir ao rever estes instantes em algum momento futuro (assim como eu).